Imagine o fim de toda a estrutura que cerca a sua vida. Desemprego. Família separada. Amigos se convertendo em inimigos. Perseguição e desconfiança de tudo e todos, inclusive do Estado.
Esta deve ter sido a base do sentimento no coração de Pedro no sábado posterior à crucificação.
Ele estava sozinho, em local incerto e não sabido - e sabe-se lá em que condições mentais e emocionais - desde a noite que antecedeu a crucificação. Havia negado o Senhor por três vezes, julgava-se o mais baixo dos homens, um covarde, e, o que é pior: não havia mais o que fazer, porque agora o Senhor havia sido morto.
No sábado, essa morte tinha o peso do selo do destino sobre a vida de Pedro, porque agora ele estava privado de seu Senhor, seu amigo, seu Mestre, e possivelmente suas negativas deixariam mágoas dentro da única família que lhe restava: os discípulos.
Para piorar, as autoridades judaicas, satisfeitas por um momento, logo empreenderiam uma perseguição aos seguidores de Jesus, visando a acabar com qualquer possibilidade de manter sua fé viva. Haviam até mesmo requerido aos romanos uma guarda na porta do sepulcro.
No entanto, graças ao relato de Lucas sabemos que Pedro estava com os demais discípulos no primeiro dia da semana (o domingo). Mas nada é falado sobre o sábado.
Cabe aqui uma palavra sobre como a religião judaica considera a duração dos dias: cada dia é considerado conforme luz e trevas, dia e noite. Assim sendo, desde os tempos bíblicos (e ainda hoje) o shabat judaico começa no pôr-do-sol de sexta-feira e termina no pôr-do-sol de sábado.
Assim sendo, Jesus foi enterrado no fim da tarde de sexta-feira, antes do pôr-do-sol, quando teria início o shabat.
Portanto, em termos da nossa contagem atual de tempo, a bíblia não revela o que aconteceu entre o anoitecer de sexta-feira e a madrugada de domingo, quando Cristo ressuscitou. A história só será retomada em Lucas 24, quando, "muito de madrugada", as mulheres foram ao sepulcro.
Certo é que, quando elas voltaram e contaram aos discípulos, Pedro estava entre eles.
Então, em algum momento durante o shabat, Pedro encontrou seu caminho de volta aos discípulos. Só posso especular sobre seu coração moído pela culpa, mas nisso ele não estava sozinho, porque sabemos que os discípulos se espalharam após a prisão do Mestre.
Para Pedro e os discípulos, o sábado que hoje o catolicismo chama "de aleluia" certamente não inspirou "aleluias" em seus corações e bocas. Ao contrário: foi um dia de luto, tristeza, remorso, incerteza pelo que viria, temor, fraqueza e até ressentimento entre os próprios discípulos.
Todo mundo passa por dias assim, que não inspiram "aleluias", dias em que não dá nem vontade de levantar da cama, onde não há perspectivas. Não raro, nestes dias não há forças nem mesmo para a leitura bíblica, e, mesmo que esta seja feita, parece não haver ali consolo, tal o estado de nossas almas.
Que dizer da oração? O que diriam em oração os discípulos naquele dia? Como orar, e pelo que clamar, se o próprio Filho de Deus havia sido morto?
Sim, todos temos nossos dias em que até a oração fraqueja. Todos. Pastores, diáconos e líderes também, assim como os discípulos. Que fazer nestes dias?
Nestes dias devemos confiar no Deus que vê o coração. Ele sabe das nossas aflições e se compadece. Ele não está surdo para que não ouça, e suas mãos não estão encolhidas para que não possa salvar.
Como disse o salmista: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da minha face, e o meu Deus". Salmos 42:11
Houve um novo tempo para o desesperado Jó. Houve um novo dia em que o salmista pôde louvar a Deus. Houve um domingo para os discípulos.
Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele e ele tudo fará. Sl. 37:5
Pr Felipe Rei - Igreja Batista 22 de Novembro - Niterói - RJ, em 16/04/2022