Sendo advogado, e por isso mesmo estudante recorrente da Constituição, conheço a forma como o Estado brasileiro é organizado. Sempre analisei a política porque esta, no fim das contas, dita os caminhos que este mesmo Estado seguirá, inclusive no que tange às questões jurídicas, mais afeitas à minha atuação profissional.
Se advoguei por profissão, hoje não mais advogo, em favor da vocação pastoral e, em nome desta mesma vocação não faço política nem apologia política, até porque sempre tive horror a evangélicos que criam verdadeiros currais eleitorais na política para, ao final, envergonhar o Evangelho. Não preciso citar nomes, porque sobram - maus - exemplos. Eu sei que você pensou numa boa meia dúzia.
Todavia, dessa vez eu vou abrir uma exceção e falar diretamente acerca da alta cúpula da União reunida em oração, sendo esta dirigida pelo pastor André Mendonça, AGU e também futuro indicado a ministro do STF, que é o assunto do vídeo que abre esta postagem.
Meu objetivo não é apologia política, mas apenas externar meu prazer por finalmente ver o que eu nunca havia visto no Brasil (em nenhuma esfera de governo): o nome do Senhor vem sendo invocado.
Os homens erram, são inconstantes, falhos, mas, mais uma vez: estão clamando ao Senhor. Isso é mais do que eu jamais esperei ver.
Em 47 anos vividos, já vi presidente católico e supersticioso, que rigorosamente saía dos locais apenas e tão-somente pela mesma porta pela qual houvera entrado (Sarney), já vi playboy (Collor, que recebeu o Papa João Paulo II em 91), ateu (FHC, que nem por isso deixou de receber o Papa João Paulo II em 97) e até quem tenha um histórico de ascensão fincado nas Comunidades Eclesiásticas de Base da Igreja Católica - mais tarde agradecido mediante a assinatura de um tratado beija-mão com o Vaticano (Lula - Decreto 7107/10). Ah, sim: Lula recebeu o Papa Bento XVI no Brasil em 2007.
Em meu tempo de vida, portanto, todos os representantes máximos de um Estado laico, inclusive Figueiredo (católico, que recebeu o Papa João Paulo II em 1981), Itamar e Dilma (que recebeu o Papa Francisco em 2013), fizeram amplos acenos a Roma.
Sei que, no curso do atual governo, houve uma visita protocolar ao Vaticano, feita pela ministra Damares e pela primeira-Dama, porém não tenho visto uma busca pela vontade papal neste governo: ao contrário, tenho visto orações feitas diretamente ao Senhor em nome de Jesus.
Tá, de vez em quando rola um Pai-Nosso, eu sei.
Curioso é perceber que há uma boa quantidade de cristãos evangélicos bem formados (tanto intelectualmente quanto eclesiasticamente) que não tem se apercebido deste fato e repetido entusiasticamente o discurso do "Estado Laico" propagado pelos detratores do presidente.
Permitam-me uma pausa para declarar que não estou aqui para defender o presidente ou abraçar integralmente seus pensamentos, métodos etc. Ao contrário, tenho minhas reservas quanto a ele em diversos aspectos. A fantasia de minion não me serve. Dito isto, voltemos ao tal Estado Laico.
Não mencionarei Figueiredo porque este não governou sob a égide da atual Constituição.
Sarney, em atos da agenda oficial (no BR e no exterior!) sempre exigiu que sua superstição fosse respeitada e fizesse parte do protocolo. Sempre entrou e saiu pela mesma porta. Ele era representante de um Estado laico, mas fez valer sua fé pessoal, impondo-a ao protocolo estatal.
Para encurtar, Collor e seus sucessores receberam visitas papais, beijaram-lhes as mãos e até mesmo assinaram um tratado internacional, posteriormente validado pelo Congresso Nacional (exceção feita a Itamar Franco, que nunca recebeu visita papal mas compareceu ao funeral de João Paulo II).
A toda evidência (e estou economizando nas referências), parece que, na prática, há muito mais religiosidade entre o Céu e a Terra do que julga a nossa vã Constituição defensora do Estado laico.
Sempre existiu uma componente religiosa na governança deste nosso Estado laico, inclusive quando os mandatários eram os mesmos que hoje esbravejam contra os tantos evangélicos no primeiro escalão do Executivo.
Por imperfeito que seja Bolsonaro e seu governo, folgo em ver a cúpula do Executivo clamando a Deus Pai em nome de Deus Filho, sem intermediários outros, mormente quando esta oração é feita pelo altamente qualificado AGU e também pastor presbiteriano André Mendonça.
Todos, repito: TODOS os governos anteriores tiveram sua diretriz religiosa, e agora, justo na vez em que os evangélicos estão em destaque, se vem com esse discurso de "Estado laico". Não caio nessa falácia cínica, principalmente porque ela destoa nitidamente da realidade praticada em todos os governos que acompanhei.
Ao contrário, vejo essa oração com muito bons olhos. Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor. Podemos ainda não ser uma nação do Senhor, mas os governantes estão clamando por Sua direção. Na multidão dos conselheiros há sabedoria e o temor do Senhor é o princípio desta mesma sabedoria. Se há temor ao Senhor e uma busca por sabedoria e direção, entendo que só me resta dizer amém.
Cabe aqui um alerta: evangélicos que eventualmente assistam a uma oração como esta e, ainda assim, tenham a capacidade de desprezar tal ato, fiquem alertas: não permitam que o seu desagrado com o governo (ou o governante) acabe por fazê-los eventualmente desagradar a Deus. Digo isto em amor, com temor e tremor.
Permitam-me traçar um paralelo para explicar melhor.
Nos tempos bíblicos as nações e seus deuses eram uma só coisa. Cada nação levava o estandarte de sua divindade para a guerra, tendo antes sacrificado em seu nome para garantir resultados.
Babilônia tinha lá suas divindades e, em meio a toda aquela mixórdia, alguém argutamente moveu a máquina estatal para impedir temporariamente as orações. Você já sabe que o objetivo era impedir Daniel de clamar a Deus, mas tratava-se de um decreto régio, com força erga omnes (contra todos). A Bíblia não nos relata como procederam os demais judeus cativos, mas nos informa que Daniel abria as janelas de seu quarto na direção de Jerusalém e ali orava a Deus, três vezes por dia, aos olhos de quem quisesse ver, contra a lei.
Será que outros judeus não passavam por ali e viam aquilo acontecer? Teriam eles meneado a cabeça, chamando Daniel de louco por confrontar um decreto do rei e chamar atenção negativa não somente contra si, mas também contra todos os demais judeus? É humanamente possível que sim, e, embora possamos entender o sentimento deles quanto ao caso, também é preciso lembrar que Deus honrou a fé e o procedimento de Daniel.
Criticar Daniel por orar a Deus naquelas circunstâncias de ilegalidade seria um erro, e eu entendo que, da mesma forma, criticar qualquer figura pública que clame pelo nome do Senhor para exercer seu mandato seria incorrer no mesmo erro. Fica o alerta.
Para terminar: quer você goste ou não goste do Bolsonaro, não podemos falhar com nosso dever como igreja (Romanos 13) de orar pelas nossas autoridades. Ou ore em concordância com elas, se o seu clamor for justo e bíblico.
Que Deus ilumine a cada um que vier a ler estas linhas.
Pr. Felipe Rei
Excelente texto e percepção!!!
ResponderExcluirA realidade é: Jesus foi enviado para nossa salvação, através de Deus. Portanto, quando Pedro disse que nunca iria trair Jesus, e o mesmo disse que sim, iria ocorrer a traição. E que homem algum, poderia mudar o destino do Cordeiro. Atualmente temos um homem comum, escolhido pelo povo para presidir o Brasil. O louco e odiado por muitos! Porém escolhido por Deus, temente ao mesmo e seguidor de Jesus. A pergunta é: qual o mais poderoso dos homens, que poderá mudar a decisão elaborada por Deus com relação a este governo?
ResponderExcluirCom Deus ninguém brinca!