Afinal, o que é uma igreja? Ela tem semelhanças com uma empresa, mas elas as colocam na mesma "prateleira"? É válido utilizar livremente noções empresariais na administração eclesiástica? Até que ponto?
Estas são questões que estive conversando com minha mãe estes dias, em decorrência de movimentos que tenho observado.
Após o impacto trazido pela pandemia de 2020, até hoje há igrejas que simplesmente não voltaram a celebrar cultos à noite enquanto outras, antes pujantes, agora ostentam baixos números de frequência. O caso mais grave (eu diria até que não foi surpresa nenhuma), pelo que tenho acompanhado, é a drástica queda ocorrida nos cultos de oração.
Não quero analisar aqui os porquês desse esvaziamento. Haverá quem o faça. Minha finalidade aqui é unicamente ponderar qual tem sido a resposta de muitos líderes a esta realidade, à luz das perguntas expostas no primeiro parágrafo.
Primeiramente: sim, em decorrência do ordenamento jurídico, há semelhanças entre igrejas e empresas. Ambas têm registrados seus atos constitutivos, respectivas alterações e atas nos órgãos estatais competentes. Ambas têm registro no CNPJ/MF. Ambas são geridas por pessoas responsáveis civil, criminalmente e na esfera trabalhista, ambas podem celebrar contratos, contratar funcionários e tudo o mais que uma PJ pode fazer, no que tange a direitos e obrigações.
Apesar dessa semelhança jurídica, a natureza da igreja é diametralmente oposta à de uma empresa, associação, ONG ou qualquer outra entidade de direito público ou privado.
Para ficarmos apenas no exemplo empresarial, vale relembrar que a finalidade empresarial é o lucro, e tudo o que envolve tal empreendimento parte daí. Portanto, a boa gestão empresarial está sempre atenta a pessoas, produtos e processos, de modo a maximizar resultados com o menor gasto possível.
Sendo assim, por exemplo, o surgimento de uma nova tecnologia que possa realizar trabalho de forma mais rápida com a mesma qualidade e menor custo importará necessariamente na substituição da tecnologia anterior e, não raro, na diminuição do quadro de funcionários.
Se, feitas as contas, se concluir que seria menos dispendioso terceirizar parte das atividades, com benefícios como a redução de eventuais riscos trabalhistas, o empresário tenderá a efetivar esta opção, gerando desemprego para aqueles que antes desempenhavam aquelas funções em sua empresa.
E a Igreja? Ela é o Corpo de Cristo. É uma família, onde todos se chamam de irmãos pois têm o mesmo Pai: Deus.
Qual é a finalidade da Igreja? Qual é o "lucro" que ela objetiva? Biblicamente falando, as igrejas "enriquecem" quando ganham almas. Sua finalidade é gerar filhos para Deus, mediante a evangelização, o discipulado e a comunhão.
Se analisarmos detidamente os custos envolvidos na realização da finalidade das igrejas, veremos o oposto daquilo que é uma empresa, pois investimos em milhares de folhetos para, às vezes, atingirmos meia dúzia de corações que, muitas vezes, nem mesmo ficarão na igreja que lhes forneceu o tal folheto. Empresarialmente falando, há um absoluto desperdício de recursos sem retorno, não há garantia de engajamento e retenção por parte de quem lê nossos folhetos (que, além disso, muitas vezes vão parar no lixo).
Também gastamos dinheiro para entregar bíblias aos que erguem as mãos, sendo certo que não raras vezes estes acabam não se fixando naquela comunidade que investiu naquela vida, seja por um ou outro motivo. Nem vou falar das revistas de EBD!
Investimos em muitas crianças que acabam por se afastar. Dos que restam, formamos adolescentes e jovens, inclusive dando-lhes formação musical, e estes mais tarde mudam de igreja em decorrência de um simples namoro que, por vezes, dura pouco. Investimos em adultos que deixam de congregar por diversas causas, seja uma mudança de bairro/município ou até por uma simples desavença com alguém da congregação.
Olhando assim, vemos que, pela ótica empresarial, uma igreja é uma entidade que desperdiça recursos. E é exatamente por isso que não podemos colocar igrejas e empresas na mesma "prateleira".
O objetivo empresarial é obter lucro financeiro para seus sócios; o da Igreja de Cristo é salvar pessoas perdidas, onde quer que elas estejam.
O lucro da empresa vai para a conta dos sócios; o "lucro" das igrejas vai para o Reino de Deus, onde o Espírito Santo funciona como RH e realoca as pessoas para melhor servir onde Ele queira.
O objetivo empresarial passa por vender seu produto ou serviço, ao passo que a Igreja parte de outro princípio: de graça recebestes, de graça dai. Aliás, talvez este seja um dos versículos menos observados em nossos dias.
O balanço empresarial visa a um saldo positivo entre entradas e saídas; o balanço da Igreja aponta vida onde havia morte, perdão onde havia discórdia, paz onde havia guerra, luz onde só havia trevas.
Fica, desta forma, bastante claro que os valores almejados são absolutamente distintos, motivo por que não se poderá, jamais, confundir empresas com igrejas.
Não obstante, muitas vezes somos tentados a gerir a Igreja sob uma lógica puramente pragmática, tomando emprestada a visão empresarial.
Espero me fazer entender quando digo que é importante gerir os recursos financeiros das igrejas com sabedoria e sem desperdícios desnecessários, porém, é importante que essa gestão não ultrapasse os limites necessários, impactando no que seria a própria finalidade da igreja, que é a realização de sua missão.
Neste sentido, e com vistas à missão, cabe voltar a um assunto já abordado: embora possa parecer uma medida de economia e racionalização de recursos, é legítimo e desejável que uma congregação não tenha voltado a realizar cultos à noite desde 2020?
Isto, a princípio, pode parecer economia de energia, água e até recursos humanos (menos uma mensagem para pregar, menos músicas para ensaiar, menos horas extras a pagar aos funcionários), mas e como fica a missão da igreja? O que houve com o bom e velho (e bíblico!) discurso de que há festa no Céu quando um pecador se converte?
O que houve com o bom, velho e igualmente bíblico princípio da mordomia? Que palavra esquecida, não? Até onde estou informado, mordomia não significa entesourar recursos, aumentar lucros nem nada do tipo, mas investir devidamente no Reino de Deus - e não apenas valores monetários: o crente investe seu tempo, sua vida, tudo o que ele é. Será que esse tempo passou?
Seguindo essa mesma esteira, há, também, outras tantas igrejas que simplesmente rescindiram a realização de seus cultos de oração devido ao baixo interesse da membresia. Mas veja-se bem: tendo em vista a missão, não seria de se esperar da liderança que, ao contrário, lutasse com Deus em oração e incentivasse os irmãos ao retorno da oração no templo durante aquele tempo?
Fica aqui um desabafo feito por pura preocupação, porque parece que estamos vivendo uma dissonância cognitiva coletiva enquanto Igreja de Cristo: por um lado, muitos concordam que os tempos estão estranhos e que tudo leva a crer numa iminente volta de Cristo mas, por outro lado, essa conclusão não tem levado crentes, líderes e igrejas a exercitar o trabalho cristão com mais afinco; ao contrário, estão deixando de realizar cultos, de ganhar almas, de fazer discipulado etc.
Quando vier o Filho do Homem, achará fé na Terra? Ou achará contas correntes abarrotadas de recursos que foram "economizados" ao custo de almas que não foram ganhas?
Pr. Felipe Rei, IB 22 de Novembro, Niterói - RJ
P.S.: cumpri meu objetivo, que era tratar especificamente do pós-pandemia. Para tratar puramente da questão Igreja x empresa, há diversos livros e artigos com outras abordagens, até muito mais aprofundadas.



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